Com o sucesso de Vingadores Ultimato, muitos fãs que não leram os quadrinhos começaram a conhecer o chamado Multiverso, universos paralelos ao nosso universo, tipo de irmãos gêmeos, porém com algumas diferenças, umas pequenas outras gigantescas. O novo filme do amigão da vizinhança parece que irá usar também deste universo, mas para podermos entender como ele pode ser encaixado no cinema, temos que voltar bem lá atrás, algumas décadas nas histórias em quadrinhos.

Vamos voltar para 1938, quando a National Periodical Publications, a futura DC Comics lançou aquele que seria a cerne da história de todo super-herói, o maior de todos, Superman, na já clássica revista Action Comics nº1. Aqui começou a era de ouro dos quadrinhos, onde as revistas do herói kriptoniano vendia milhões de exemplares. Com seu sucesso, vários outros heróis foram sendo criados. Tanto na futura DC, quanto em outras editoras. Até o final da Segunda Guerra Mundial, o sucesso era enorme e a DC tinha Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash, Lanterna Verde e outros. As histórias se passavam na época em que era publicada, ou seja, os anos 30 e 40. Mas a DC não tinha um universo compartilhado como hoje conhecemos. Os heróis viviam no mesmo universo, é verdade, mas não se encontravam com frequência, era muito raro. Na verdade, os editores eram muito territorialistas, não permitiam que heróis sob suas responsabilidades se encontrassem com de outros editores. Mas tinham, as vezes aventuras em campos iguais, como vários tendo participado da Guerra.

Arte homenagem da Action Comics #1, por Alex Ross e a original de 1938.

Até o final da Grande Guerra as histórias em quadrinhos era muito popular e Superman e Cia reinavam com folga. Mas após o final da guerra, os quadrinhos entraram em declínio e poucos heróis ainda conseguiam manter uma revista própria, na verdade somente Superman, Batman e Mulher Maravilha. Entre o fim dos anos 40 até o meio dos anos 50, as revistas de super-heróis amargaram quase o esquecimento. Mas, com a advento da ficção científica que começou a fazer sucesso em ouras mídias, as coisas começaram a mudar.

Foi quando o editor Julius Schawarts iniciou o período que ficou conhecido como Era de Prata, quando modernizou vários super-heróis dos anos 40. Foi em 1956, na revista Showcase 4. Lá apresentou o novo Flash, criado pelo roteirista Robert Kaniger e pelos artistas Carmino Infantino, com auxílio de Joe Kubert. Esse novo herói era Barry Allen, perito forense da polícia que foi atingido por um relâmpago e produtos químicos, que concedeu a ele super-velocidade. O uniforme do Flash de Barry Allen era e ainda hoje é um dos melhores dos super-heróis. Com uma abordagem mais Si-Fi, o novo Flash se diferencia do antigo Flash, Jay Garrick, que no Brasil ficou conhecido como Joe Ciclone, tanto que o hoje é muito comum acharem que o primeiro e único Flash é o Barry.

Flash mais famoso e o Flash original

Com essa atualização, o Flash voltou a fazer sucesso e com isso, os quadrinhos começaram a se tornar relevantes novamente, pois vários outros heróis da DC começaram a ser modernizados, como Lanterna Verde, que na era de oura era Alan Scott e passou a ser o piloto de teste Hal Jordan. Muitos personagens tinham seus poderes baseados em magia, como Alan, que tinha uma lanterna mágica e tinha a madeira como fraqueza. Mas Hal Jordan tinha recebido seu anel de um alienígena moribundo, que era um policial intergalático.

Lanterno Verde, enquanto o original tinha um anel de uma lanterna mágica, Hal Jordan conseguiu de um alien moribundo

Essa nova abordagem fez que os super-heróis fossem novamente um sucesso no mercado editorial. Então, como o Flash se tornou o precursor da nova era dos quadrinhos, ele também se tornou o responsável pelo multiverso. Barry Allen se tornou herói ao ganhar poderes, mas foi influenciado pelo Flash Jay Garrick, que nesta realidade, era apenas um personagem de quadrinhos. Uma grande sacada dos autores. Mas não querendo ser processado pela editora, Barry então confecciona um uniforme inspirado no Flash das HQs, mas bem diferente, além de cobrir seu rosto com uma máscara, já que o uniforme do Garrick, ele usava apenas um elmo, não cobrindo o rosto.

Só que os fãs queriam e era uma questão de tempo para juntar o Flash da era de ouro com o Flash da era de prata. Então, em 14 de junho de 1961, finalmente aconteceu. Na história Flash of Two World em The Flash # 123, de um jeito bem sacado, Gardner Fox, usando metalinguagem, simplesmente escreveu a história que “o escritor Gardner Fox sonhava com as histórias do Flash (Jay Garrick) e sem saber que na verdade estava sonhando com a realidade desse Flash, pensava que estava inventando o personagem e suas histórias.”

Flash conta a Garrick que ele é um personagem de HQ na Terra dele

Então, em um evento, ao finalizar sua apresentação para uma multidão de crianças, Barry vibra suas moléculas de um jeito que nunca tinha feito antes e acaba sendo transportado para o mundo de Jay Garrick, que foi convencionado a ser a Terra-2, enquanto o do Barry se tornou a Terra-1. Estava criado o multiverno no universo DC. É muito legal quando, ao se encontrarem, Barry explica que no mundo dele, Garrick é um personagem de quadrinhos que o inspirou a ser um super-herói, e ao usar seu nome.

Com a criação do Multiverso, a DC pôde resolver um problema que veio junto aos personagens renovados, em como encaixaria os principais heróis neste novo universo. Ficou estabelecido, que a Terra principal, a Terra-1, Superman nunca lutou na Segunda Guerra Mundial, pois chegou a Terra muitos anos depois do Superman da Terra-2. Então, todos os heróis da era de ouro estavam na Terra-2 e agora a Terra-1 não tinha o peso da cronologia anterior, fazendo que os personagens, além de serem diferentes, tivessem mais liberdade para abordar outras histórias. E principalmente, como explicar que não estavam envelhecendo. Mesmo que o tempo não passe da mesma forma que no nosso mundo, começava a pesar essa realidade.

Durante anos, a DC utilizou o multiverso, fazendo que os heróis da Terra-1 se encontrasse com os heróis da Terra-2. O mais comum era a Sociedade da Justiça, a “Liga” da Terra-2, se encontrando com a Liga da Justiça da Terra-1. Mas o multiverso se tornou muito maior na DC, fazendo ser criados outras Terras, como a Terra-3, onde uma versão da Liga da Justiça era vilões, o Sindicato do Crime, a Terra-X, onde a Segunda Guerra durou décadas, Terra-S, é um universo onde a DC adquiriu os personagens da editora Fawcet, como Shazam, e tantas outras que teria que fazer um artigo somente para falar sobre isso.

Liga da Justiça e Sociedade da Justiça – A era de prata e de ouro juntos no multiverso

Uma das principais Terras paralelas é a Elseworlds, que embora não tinha nenhum nome na época, foi de onde saiu o Cavaleiro das Trevas, a mini-serie de Frank Miller que mostrou o Batman, voltando da aposentadoria, aos 55 anos. Muitos anos depois, foi estabelecido que essa linha era uma realidade paralela, não o futuro do personagem.

O Cavaleiro das Trevas, um Batman idoso e com sede de sangue

Então para encontrar com o Shazam, na época chamado de Capitão Marvel, o Superman (que é o principal, da Terra-1) tinha que de um jeito, ir a Terra-S ou vice-versa. Chegou um ponto que já era impossível entender a cronologia da DC. Nesta época, precisando simplificar a cronologia para trazer novos leitores, a DC que já tinha milhares de universos paralelos, produziu, em 1985, a história de Marv Wolfman e desenhado por George Perez, Crises nas infinitas Terras. Nesta história, uma criatura onipotente, o Anti-Monitor, quer destruir todos os universos paralelos e apenas com a união dos heróis de todas as Terras o vilão poderia ser detido. Embora milhares de heróis tenham participado do evento, a história foi eclipsada no grupo formado por Superman da Terra-1, Superman da Terra-2, Pária, o Lex Luthor Jr, da Terra-3 e Superboy da Terra-Prime. Uma mega-saga que durou 12 meses e que teve como consequência as mortes de Supergirl e do Flash da era de prata. Mas a maior consequência foi que após o fim da mini-série, ficou estabelecido que agora só existia um único universo.

Crises nas Infinitas Terras, a maxi-série que matou Flash e Supergirl

Neste novo universo, os principais personagens da editora sofreram reboot, como o Superman, que foi o que mais teve mudanças. Ficou estabelecido que ele era realmente o último filho de Kripton, então Kandor, Supergirl, Zod, entre outros kriptonianos, não existiam. Tudo isso, pela mente brilhante do maior artista da época, Jonh Byrne, que além disso, fez o Superman ficar menos poderoso, transformou a relação dele com Lois, que passaram a disputar matérias e embora ela ainda tivesse uma queda pelo Homem de Aço, não era mais a dama em apuros, uma louca casamenteira, era agora uma mulher forte e determinada. Embora Mulher Maravilha, Batman, e outros tenham reiniciado suas histórias, alguns personagens falavam como soubessem o que tinha acontecido. No caso, o novo Flash, Wally West, que foi o Kid Flash, assumiu após a morte do Barry Allen. Na verdade esse foi um grande furo, pois como o Flash morreu, e Wally se tornou o novo por isso, como a Supergirl morreu e ninguém sabia que ela sequer existiu?

Superman de Jonh Byrne, menos poderoso e mais humano

Embora tenha trazido vários leitores para suas revistas, e até para o mercado em geral, por ter facilitado a cronologia, não demorou muito para a DC voltar a ter outras realidades. Afinal o multiverso é uma caixinha de Gato de Schrödinger( não podia deixar de colocar o trocadilho.) A teoria do Gato de Schrödinger é que explica a mecânica quântica, que o gato pode estar morto ou vivo dentro da caixa com veneno. É daí que vem uma das explicações sobre o multiverso.

Depois de varias vezes revisitar o multiverso após o fim de Crise nas Infinitas Terras, a DC vez um novo reboot, colocando novamente os heróis em uma nova Terra paralela, dessa vez na saga Os Novos 52. Só que agora, não era uma única Terra, mas 52 novas.

Mas se acha que é exclusividade da DC usar o multiverso, saiba que a Marvel também faz uso dela, embora tenha uma importância muito menor. Talvez pelo universo Marvel ter sido criado somente em 61, vinte e três anos depois, mesmo que tenha personagens criados nos anos 40, o conceito de multiverso seja mais utilizado nas histórias “E SE…”. Nestas histórias, a Marvel pegava histórias consagradas e dava uma final diferente a que conhecemos, como ” E Se o Quarteto Fantástico não tivesse ganhado seus poderes” ou ” E Se o Capitão América não tivesse sido congelado”, etc. Esse era o mote da Marvel nos anos 70 e 80, ficando longe daquele multiverso complicado e bagunçado da DC. Mas existia alguns universos que faziam até uma participação no universo principal da Marvel( na verdade a Marvel tinha vários universos, o principal que conhecemos é chamado universo 616).

Um deles era um universo em que surgiu o Esquadrão Sinistro, personagens criados por Roy Thomas para serem contra-partes da Liga da Justiça, que acabaram indo ao universo 616 e lutaram com os Vingadores (Avangers Vol 1 # 70) em 1969. Já nos anos 70, os roteiristas transforaram o conceito e criaram o Esquadrão Supremo, que pertencem a Terra 712. Quando os Vingadores encontraram esses heróis, acharam que estavam encontrando o Esquadrão Sinistro.

Esquadrão Supremo, a Liga da Justiça da Marvel

Poucos foram as revistas que eram protagonizadas por seres de outro universo, era um problema que a Marvel não queria. Mesmo quando tinha que resolver problemas cronológicos, se fazia um retcon, ou seja, apenas fazia um personagem relembrar determinado evento de uma forma que queria se atualizar ou simplesmente se parava de fazer menções a determinadas fases da vida, como a aventuras de Reed e Ben Grimm, o Sr. Fantástico e o Coisa, respectivamente, que lutaram na Segunda Guerra. Chegou um ponto que a Marvel apenas não mencionou mais isto e tirou essas lembranças deles. Sem uma Crise nas Infinitas Terras para chamar de seu. Ou o Homem-Aranha e outros personagens mais urbanos, que estavam em pleno anos de 1960, com roupas e objetos da época e simplesmente a passagem do tempo não foi sentida, fazendo apenas as histórias avançarem sem se importar com isso.

Embora a Marvel não utilizava o conceito de multiverso como a DC, as coisas mudaram no ano de 2000, com o lançamento da linha Ultimate, primeiro com os X-Men, e após esse sucesso, o Homem-Aranha também debutou neste universo, que foi chamado de Terra 1610. Este universo foi uma forma de atualizar os heróis Marvel, sem necessariamente fazer uma reboot completo como a DC vinha fazendo durante anos. Os personagens era bem diferentes em comparação ao tradicional, no caso do X-Men, mais mantinham sua essência, só atualizada, como o Homem-Aranha. Era um universo sem amarras, que tinha vida própria. Principalmente quando surgiu Ulitmates, no Brasil os Supremos, a versão dos Vingadores deste universo. Diferente dos heróis do universo tradicional, aqui eles eram empregados do governo e colocaram os conflitos internos do Vingadores em um patamar muito mais elevado, chegando a quase se mataram. Esse universo foi tão importante que foi a base para o Universo Cinematográfico Marvel, o MCU.

Supremos, da linha Ultimate no desenho fantástico de Bryan Hitch. Universo alternativo que fez muito sucesso nos anos 2000 e foi a base para o MCU.

Além disso, foi no Universo Ultimate que foi criado outro universo, o dos Zumbi Marvel. Este foi um dos poucos do mutliverso que teve uma série curta, dividia em varias partes, sobre os heróis Marvel que foram transformados em Zumbi e comeram todos do planeta. E enfrentaram o Ash Williams, do Evil Dead. Ótima historia.

Mesmo com o fim do universo Ultimate, algumas coisas ainda foram reaproveitadas, como o Homem-Aranha Milles Morales, que fez tanto sucesso, que migrou para a Terra 616.

Milles Morales agradou tanto como Homem-Aranha no Ultiverso que foi introduzido ao universo 616.

Agora em relação ao multiverso, a Marvel ainda o utiliza da mesma forma, sem saturação e com mais cuidado, tanto que a saga do Aranhaverso está atualmente em seu segundo evento, o Aranhageddon. Como sabe o Aranhaverso é a aventura que junta o Homem-Aranha de muitas realidades, como o Homem-Aranha da Terra 616, Gwen-Aranha, Porco-Aranha, etc.

Agora que o mega-evento Vingadores Ultimato abriu as portas do multiverso, e o Homem-Aranha Longe de Casa, parece expandir o conceito, será muito interessante ver coma a Casa das Idéias irá transportar isto para o cinema. De uma coisa é certo, não irá decepcionar. E a DC, que entende tudo de multiverso nos quadrinhos, perdeu a chance de utilizar esse conceito. Foi até divulgado que o filme do Flash iria fazer uma adaptação da saga Flashpoint, a minissérie que o Flash volta no tempo para salvar sua mãe da morte e mudo o presente. Seria um jeito de fazer o reboot no universo DC compartilhado, por causa do fracasso do filme da Liga da Justiça. Mas em não se decidirem pela história, a DC fez no cinema o que a Marvel faz nos quadrinhos, não um grande evento, não uma Crise, mas simplesmente finge que não aconteceu. Não vejo, no DCU, uma adaptação de Crises nas Infintas Terras ou um Flashpoint. A DC perdeu uma grande oportunidade.

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