Quando um estúdio se prontifica a produzir um filme, tanto de super-heróis, quanto de outras categorias, ele visa o maior lucro possível. Afinal, é uma empresa e como tal vive de lucros. Mas quem dirige são executivos, não diretores ou atores. Eles, via de regra, não são artistas e não entende de arte, mas de números e dados de marketing. Isso não é problema algum, deste que os excecutivos saibam até onde eles podem equilibrar a relação entre eles e os artistas.

Como estamos falando da Warner Bros, seu universo compartilhado DC chegou a ser dado como morto pela imprensa e críticos após o fracasso do filme da Liga da Justiça. Como o filme, assim como os Vingadores, poderia dar errado? Juntar os maiores heróis dos quadrinhos, Superman, Batman, Mulher Maravilha, etc, o sonho de qualquer fã, não era um sonho realizado? Pelo jeito não. Não basta apenas juntá-los em uma história ruim, com efeitos especiais ruins e achar que seria um sucesso. Na verdade, é bem mais complexo.

O filme teve muitos problemas

Para contextualizar, vamos voltar algumas décadas no tempo, nos anos 70. Nesta época, a Warner licenciou o seu maior personagem, Superman para ser produzido um filme. O primeiro roteiro foi de Mario Puzo, que escreveu O Poderoso Chefão, e era um roteiro enorme, mas de 500 páginas ao qual seria divido em 2 filmes. Mas Superman só ser tornou um filme perfeito graças a Richard Donner. Ele entendeu o personagem, tirou do roteiro tudo que não iria funcionar e se baseou em um manterá, o filme tinha que ser verossímil. Ou seja, tudo no filme tinha que ser o mais realista que o público aceitasse. E o melhor filme de super-heróis de todos os tempos foi feito. E não sem problemas. Afinal, como todo executivo, os da Warner batiam muito de frente com o diretor, seja pelo dinheiro investido, seja por diferenças criativas. Donner não chegou a terminar o segundo filme, mesmo com o sucesso de público e crítica do Superman – O Filme. Mas ele provou que um homem podia voar.

Richard Donner dirigiu o filme definitivo do Superman e o melhor filme de super-herói

E durante quase três décadas, salvos algumas exceções que acabavam dando certo, os filmes de heróis era o patinho feio e figuras B do cinema. Até o ano de 2000, quando foi lançado X-Men – O Filme. Embora não fosse um primor de produção e nem muito fiel aos quadrinhos, eles foram bem recebidos, pois era um bom filme, os personagens queridos estavam lá com poucas diferenças das contrapartes desenhadas (os uniformes coloridos foram substituídos por couro preto, graças ao sucesso de Matrix um ano antes) e com efeitos especias até descentes, convencia que estávamos vendo nossos heróis em carne e osso. Sem dizer que como Superman, os coadjuvantes eram atores oscarizados, os principais eram bons e ainda teve um que acabou virando o astro no papel do personagem mais famoso, Wolverine.

X-Men: O Filme abriu as portas para filmes de super-heróis em 2000. Wolverine transformou seu interprete em um astro.

Realmente não há como transportar os quadrinhos literalmente para o cinema, adaptações são necessárias, mas como disse Kevin Feige, tem que respeitar o material fonte. E nisso, a Fox, entre trancos e barrancos, no limiar desse respeito, foi bem sucedida com seu primeiro filme dos X-Men. Esse filme foi tão importante, pois abriu as portas para os estúdios perceberem que realmente eram viáveis produzir filmes de super-heróis. Como falei acima, são empresas e só investiram porque havia um retorno financeiro muito bom.

Mas a DC, depois dos ótimo Superman 1 e bom Superman 2, caiu ladeira abaixo com Superman 3 e enterrou a série com Superman 4. Os filmes foram ficando cada vez piores, pois com a saída de Donner, o diretor seguinte não entendia o personagem e seu universo e muito menos como torná-lo interessante. Mesmo que em 1987 tenha acabado para o Superman seus filmes no cinema, em 1989 Batman teria um filme, por Tim Burton que foi um sucesso avassalador que ressurgiu a Batmania. Tim Burton também chegou ao limiar, aquela linha entre entender o personagem, mas foi competente em mostrar a atmosfera do Homem Morcego. A produção muito caprichada fez Gotham ser um personagem no filme. Sem dizer que o instrumental de Danny Elfman foi espetacular e foi feita várias versões para diferentes mídias.

Batman, em 1989, fez um sucesso excecional que ressurgiu a batmania

Depois de Batman – O Retorno, os filmes seguintes foram uma galhofa de Joel Schumacher, que tentou emular a série de TV do Batman dos anos 60. O resultado foi ter acabado com qualquer filme do Batman por quase 10 anos. Até que finalmente contrataram Christopher Nolan para dirigir Batman Begins que foi um ótimo filme, pois foi feito como Richard Donner tinha feito, um filme verossímil. Bem pé no chão. E respeitando o personagem e seu mundo, mesmo que esse Batman não seja exatamente o mesmo dos quadrinhos. Nolan soube explorar o que funcionava e tirou os excessos, que não ficaria bem no cinema. Foi uma versão digna do Homem Morcego. As sequências foram sucesso, pois ele manteve a pegada e continuou horando o personagem, em especial, o segundo filme, O Cavaleiro das Trevas, que apresentou o Coringa. Mesmo a diferença estética do Palhaço do Crime entre o filme e os quadrinhos (no filme o Coringa tem cicatrizes que parecem um sorriso e pinta o rosto como pintura de guerra) a essência do personagem estava lá. Até mais que do Batman. Um agente do caos, onde o que importa é a anarquia. Acho que ninguém entendeu melhor o Coringa. E por isso, foi o melhor filme da trilogia.

Heath Ledger, o melhor Coringa da história, responsável pelo melhor filme da trilogia de Nolan. Após sua morte pouco depois da estreia do filme, ganhou um Oscar de melhor ator coadjuvante póstumo

Mas esses casos são poucos comuns. Nem na Marvel os artistas tem tanta liberdade para valer sua visão, sempre tem um pouco de pressão. Até é normal e saudável para o filme, como Kevin Feige vem mostrando, mas não é o caso da DC. Depois de perceber tudo que a Marvel estava conseguindo, a DC foi pelo pior caminho. Em vez de fazer seus filmes focados em seus personagens antes de formar o grupo, foi direto fazer Batman vs Superman, colocando até a Mulher Maravilha no bolo. A ideia não era ruim, o que foi ruim foi a execução. Os executivos, olhando os lucros, esqueceram que primeiro deve ter uma qualidade, não sair jogando no colo dos fãs o filme sem que eles tenham afeto às histórias. Por isso ninguém se importou quando o Superman morreu em BvS e vi no cinema no filme Vingadores Ultimato, muita gente chorando e boquiaberto com as mortes que lá aconteceram. Havia conexão com os personagens Marvel e suas histórias, na DC não.

A Warner errou em tentar apressar o encontro dos heróis e por ter escolhido Zack Snyder como responsável para a empreitada.

Ao chamar Zack Snyder, a DC cometeu o erro de não entender que um diretor com muito apelo visual não é suficiente para fazer um bom filme, mesmo que tenha feito alguns sucessos. Snyder achava que o Superman era como o Batman, só que sem máscara. Em Homem de Aço, Clark é muito depressivo, está sempre com cara de sofredor e não acredita na humanidade. Diferente dos quadrinhos em vários níveis. Diferente de Superman de Richard Donner. Mesmo sendo um bom filme, não era um filme do Superman. Tudo que ele fez na película, não condiz com o Superman conhecido e não adianta Snyder dizer que ele estava começando, era um novato. Isso foi apenas justificativas para seu baixo grau de entendimento sobre HQs. Snyder fez um filme da qual era a visão dele sobre o Superman, não sobre o Superman.

E para piorar a decisão dos executivos, além de ter escolhido Snyder para fazer o filme que recontava a história do Superman no cinema, ainda tiveram a ideia de fazer um filme pré-Liga com Superman e Batman se enfrentando, onde apareceria a Mulher Maravilha e uma cena onde os outros heróis eram apresentados, em um situação para força a barra. O filme foi massacrado pela crítica, mesmo tendo conseguido um bom retorno financeiro. Nesse caso, até mesmo com lucro, os executivos já estavam ficando preocupados. Mas como já tinha um calendário com vários filmes nos próximos anos, eles continuaram com a ideia de fazer a Liga da Justiça e ainda mantiveram Snyder na direção. Só que depois do filme tinha praticamente terminado as filmagens, que os executivos decidiram que o filme era ruim, mandaram o diretor embora e trouxeram Joss Whedon, o diretor do ótimo Os Vingadores, de 2012, para ver o que dava para salvar. Mas não queriam mudar a data de estreia, visando a época de lucro, o que foi mais uma fora deles. Com o prazo apertado, Joss fez toneladas de refilmagens, teve problemas com seu principal ator, Henry Cavill, o Superman, pois ele estava fazendo outro filme, Missão Impossível: Efeito Fallout, e ele não podia tirar o bigode, então ficou decidido que a equipe de efeitos digitais iria tirar digitalmente. O resultado depois da estreia foi que o filme foi massacrado por ser uma concha de retalhos, pois havia tons diferentes e muitas cenas tinha um péssimo corte, a cara do Superman ficou esquisita e incomodava vê-la, o filme não conseguiu o retorno esperado e Whedon ainda saiu queimado, além do calendário de filmes ter sumido. E até decretaram que o DCEU tinha morrido.

Filme pode ter enterrado o universo compartilhado DC

Mas se o fim do poço chegou para os super-heróis da DC, significa que agora só existia um caminho, para cima. Então, finalmente os executivos perceberam o óbvio e deixaram o universo estendido de lado (na verdade, não o universo estendido, mas o universo sombrio de Snyder), pararam de ter vergonha de admitir que super-heróis podiam ser coloridos (Marvel estava fazendo isso a anos) e deixaram os diretores controlarem seus filmes. Sem a obrigação de seguir o padrão Snyder, os diretores Patty Jenkins (Mulher Maravilha) e James Wan (Aquaman) conseguiram produzir filmes de sucesso de público e crítica. A única coisa boa de Snyder foi em relação ao elenco, pois todos ficaram ótimos nos seus papeis. Até mesmo o filme de Shazam foi um sucesso, pois era o filme com tom de comédia maior que todos os filmes da DC até agora.

Diana ri, pois seu filme foi sucesso de público e crítica, assim como Aquaman

Era óbvio que ao tirar o comando de um diretor que não entende dos personagens e dar mais liberdades criativas às suas equipes, iria melhor e muito a qualidade dos filmes. Agora James Gunn está sendo cotado para além de dirigir, também se tornar o responsável pelo retorno do DCEU. Se isso realmente se confirmar, será a melhor jogada da Warner para fazer o universo compartilhado funcionar tão bem quanto funciona na Marvel. Isso se o estúdio realmente der carta branca para o diretor. Para a DC ser páreo para a Marvel, deverá aprender com seu rival, dar mais liberdade aos seus artistas, escolher aqueles que realmente entendam a história da DC e coloquem um toque pessoal nas histórias. Não há magia ou receita de bolo. É seguir aquilo que Kevin Feige, presidente da Marvel já disse, respeite o material original. Feige viu o Superman – O Filme e aprendeu isso. Como a DC que produziu o filme não reaprendeu ainda?

Mas parece que finalmente está aprendendo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.