Nos anos 60 houve o fenômeno chamado Batmania por conta da série televisiva com Adam West e Burt Ward. Para muitos naquela época, que não lia os quadrinhos, Batman era aquilo, um personagem bonachão, engraçado e até ridículo, que servia apenas para entreter como alívio cômico as vidas dos americanos, para esquecer a Guerra do Vietnã. Mas com o fim dá série em 1968, o personagem foi perdendo relevância e popularidade. Mas com a chegada dos anos 1970, Batman foi revitalizado nos quadrinhos com Dennis O’Neil e Neal Adams, que tirou aquele tom infantilizado dos anos 60 e voltou o Morcego para as origens, fazendo-o sombrio, sério e suas aventuras de horror góticas e detetivescas. Desse modo, voltou a ser relevante e popular novamente nos quadrinhos. Mas para o grande público, fora do meio dos quadrinhos, ele era o Batman do seriado ainda. Mas um produtor, Michael Uslan, queria mudar isso.

Quando o filme do Superman de Richard Donner estreou, foi um enorme sucesso cinematográfico, mas por incrível que parece, não lançou uma “supermania”, como a série do Batman dos anos 60. Mas foi o suficiente para que Uslan conseguisse comprar os direitos de Batman, mesmo que um editor da própria DC Comics o aconselhasse a não fazer isso, por achar que o produtor perderia dinheiro. Mas em outubro de 1979, Uslan comprou os direitos de filmagem e assim começou sua odisseia para levar a sua visão, de um Batman sombrio e sério, como o herói idealizado por Bob Kane e Bill Finger em 1939. Foi uma odisseia, pois Uslan não conseguiu um estúdio que quisesse fazer o filme idealizado por ele, mas queriam fazer como a série dos anos 60, aquele estilo camp.

Batman da TV anos 60: Mesmo responsável pela primeira batmania, é uma galhofa só e os fãs do personagem têm vergonha até hoje

Depois de muitos anos sem conseguir tirar o filme do papel, com produtores entrando no projeto, roteiros sendo reescritos, diretores recusando ofertas de dirigir o filme, em 1985, após o grande sucesso de As Grandes Aventuras de Pee-wee, Tim Burton foi contratado pela Warner Bros para dirigir Batman. Foi sua visão para trabalhar com personagens estranhos e bizarros que chamou a atenção da Warner para o trabalho do diretor. Burton não era fãs de HQs, mas adorava o tom sombrio e gótico das Graphic Novels A Piada Mortal e Batman – O Cavaleiro das Trevas. E foram essas duas HQs que fizeram a Warner se animar em fazer o filme do Batman.

Com a benção de Bob Kane, o criador do herói, Burton escolheu Michael Keaton como o Batman, uma escolha que aborreceu muitos fãs, que viam Keaton como ator de comédia, além de não ter o porte físico do personagem. Jack Nicholson foi escalado como o Coringa, que só aceitou depois que suas exigências foram atendidas ( seu salário, e uma porcentagem das bilheterias). E para interesse romântico, foi escalada Kim Basinger, a estrela do momento em Hollywood.

Com uma ambientação sombria e séria, Batman 1989 foi um acerto

Antes do filme ser lançado, uma forte campanha de marketing mostrava a força da marca. Fotos da produção, onde mostrava Batman, não com um traje de malha, mas com uma armadura, fizeram os fãs vibrarem. E as panorâmicas da cidade e o estiloso batmóvel foram suficientes para elevar o hype da produção. Batman estava sendo vendido não como um simples filme, mas como um produto e muito valioso

Com um orçamento de 35 milhões de dólares, Batman estreou nos EUA em 23 de junho de 1989 e 26 de outubro no Brasil. E trouxe de volta a batmania, onde produtos estampados com o símbolo do morcego eram sucesso imediato. Mochilas, lancheiras, cadernos, gibis, todos o produtos que tinham o símbolo ou a foto dos personagens do Batman, vendiam como água no deserto.

O Batmóvel do filme foi o mais estiloso de toda a franquia

Batman é na verdade um divisor de águas, pois foi neste filme que os estúdios aprenderam a fazer marketing maciço, coisa que hoje se tornou normal, naquele tempo era uma coisa do outro mundo. Tim Burton ficou até constrangido com tamanha exposição. O sucesso do filme e seus pesado marketing ensinaram Hollywood a entra no mundo dos negócios de itens derivados do cinema, pois o filme faturou mais de US$ 411 milhões só em bilheteria, mas quase o dobro de produtos licenciados.

Mas o filme era bom o suficiente para ser esse sucesso todo, transformando Batman no herói mais popular de todos os tempos? Para a época, sim.

Veja bem, toda história de HQ ou filme é um produto de seu tempo e naquele tempo Batman foi uma novidade, tanto narrativa, quanto visual. As melhores coisas que o filme de Tim Burton nos presenteou foi ter colocado seu Batman mais humano, pois ele não usava uma roupa colante, mas uma armadura. Realmente era mais verossímil que um vigilante, sendo um humano, que entra no meio de um tiroteio se protege com uma armadura e não com um colante. Esteticamente ficou muito melhor, mesmo que a máscara ficasse dançando no rosto de Keaton, mas pudemos perdoar isto na época. A produção foi impecável, com a cidade de Gotham sendo um primor em art deko, gótica, sombria e atemporal. E esse foi a maior sacado do filme, que se mantém até hoje, seja em séries, gibis ou filmes. Nunca podemos dizer qual época Batman se encontra, pois temos elementos do passado, quanto do presente e até coisas futurísticas. E o sonho de consumo de qualquer fãs, o batmóvel tem, até hoje, o melhor design, lembrando uma locomotiva. Nem nos quadrinhos tinham um batmóvel tão estiloso quanto de Burton.

Vicky Vale de Kim Basinger não tinha muita função, a não ser para ser a namorada do herói e fazer Batman e Coringa lutarem.

Os efeitos sonoros eram muito bons, com a fotografia sombria e gótica nos passava uma atmosfera impar. Até chega a me lembrar um pouco Alien – O Oitavo Passageiro. Mas a trilha sonora era um show a parte. Com a trilha incidental composta por Danny Elfman, a musica tema é hoje tão famosa como a Superman de Jonh Williams ou de Star Wars, também de Williams. Mas parte da trilha sonora foi composta por Prince por escolha dos produtores, mas desagradou Burton, que não queria um filme comercial.

Burton fez o roteiro ser centrado na psique dos dois antagonistas, Batman e Coringa, em uma liberdade criativa, os colocava como criador e criatura. Diferente do cânone da DC, Coringa aqui tinha uma origem, um nome. Ele era um gangster chamado Jack Napier que quando novo foi o assaltante que mata os pais de Bruce Wayne. Então, ele é o responsável pela criação do Batman, assim como Batman acabou criando o Coringa. Baseado em a Piada Mortal, Batman enfrenta Napier e o joga em um tonel de produtos químicos, que acaba mudando a cor de sua pele e cabelos. Mas, para se diferenciar das HQs, aqui o Coringa não ri porque é louco, mas porque ficou deformado, ficando com um sorriso no rosto para sempre. E em uma parte do filme, Bruce descobre que ele era aquele ladrão que matou seus pais. A partir daí, a história muda de um homem que quer proteger todos para um homem em busca de vingança.

Ao mudar o traje de pano por uma armadura, Burton criou uma regra para todos o filmes de Batman. Mas no primeiro filme, a máscara sambava sobre seu rosto.

Essa é a maior diferença que o filme acabou produzindo, se afastando do material original. Nas HQs, Batman nunca descobriu quem era o assassino, visto que ele passou mais de uma década fora de Gotham, viajando pelo mundo para se tornar o maior lutador que o mundo já viu. Ele sabe que está em uma luta sem fim contra o crime, um inimigo sem rosto, e sabe que só irá parar quando morrer. O filme ao colocar que a luta dele é contra um inimigo em particular, transformando sua luta em vingança, diminuiu a importância da sua cruzada.

Jack Nicholson foi o ator mais caro para a produção, mas valeu cada centavo. Em um show de interpretação, ele se mostrou um Coringa louco, inteligente e mortalmente perigoso. Até a chegada de Heath ledger, que foi o melhor Coringa do cinema. Diferente de Kim Basinger, que acabou ficando com uma Vicky Vale que não era mais que uma donzela em perigo, ela fosse retratada com uma femme fatale, com certeza o filme tinha feito história. Mas ela não foi uma perda total, pois graças ao talento de Basinger, a personagem, mesmo sem muita função, não é relega para escanteio pelos fãs, que até lembram dela com carinho.

Gotham era uma personagem com vida própria no filme

Embora o filme seja um triunfo na parte técnica, efeitos visuais bons para a época, figurino impecável, ótimos atores, o problema era o roteiro. Ele pecava por falta de coerência, poucas cenas de ação e não valorizava a dicotomia na relação de Batman e Coringa. Sempre houve na história dos personagens uma relação simbiótica entre os personagens que os fazem funcionar como oponentes, com o Batman sendo a ordem e o Coringa o caos. No filme, foi muito superficial, sendo mais uma aventura do herói contra o vilão. As motivações dos personagens esbarravam muitas vezes no incoerência do roteiro, como o Alfred levando Vicky Vale para dentro da Batcaverna, sem se preocupar com ela saber a identidade do patrão Bruce. A verdade é que os roteirista não estavam preocupado com a realidade ou coerência, era precisa resolver as coisas o mais rápido possível para o filme caminhar. O filme também foi muito econômico em cenas de ação, na verdade não há nenhuma que hoje seja lembrando como o grande momento do filme, ou que esteja no imaginário popular. Nos dias de hoje, isso seria o suficiente para afundar o filme.

Jack Nicholson rouba a cena com seu Coringa

Mesmo assim o filme foi um sucesso e teve várias sequências, mas somente o próximo, Batman o Retorno, foi feito com Tim Burton e Michael Keaton. Dessa vez com Michelle Pfeifeer como a melhor Mulher Gato do cinema e com o fantástico Dani De Vito, como o Pinguim, foi um filme bem mais com a cara de Tim Burton, que teve melhor domínio da história e até fez um filme melhor que o anterior. Ninguém consegue esquecer o “Miau” da Mulher Gato de Pfeiffer.

Michelle Pfeiffer deu vida a melhor Mulher Gato do cinema até hoje

Infelizmente com a saída de Burton no terceiro filme, e com isso, também a saída de Keaton, o terceiro e quarto filme ficou com Joel Schumacher, Batman Eternamente e Batman e Robin, respectivamente se tornaram um ode à série de TV dos anos 60. Os filmes foram péssimos e transformaram o Batman novamente em piada, com os terríveis bat-mamilos e bat-cartão de crédito, fazendo seu último filme em 1997 ter enterrado a franquia no cinema por quase 10 anos.

Mesmo com elencos estelares, os filmes de Joel Schumacher foram uma vergonha carnavalesca e fizeram a franquia sumir dos cinemas por quase uma década

Batman de 1989 teve muitos defeitos, mas também muitos acertos e o sucesso provou isto, até mesmo porque a campanha de Marketing foi fantástica, o que não deixou qualquer dúvida na cabeça dos fãs, que precisavam consumir tudo em relação ao Batman, sem nem saberem se precisavam. O legado deste filme pode ser lembrado por ter ensinado Hollywood a transformar seus filmes em produtos, que os filmes de super-heróis, ainda poderia ser bem sucedido, e principalmente foi responsável por ter sido a maior inspiração para a criação da melhor série animada de todos os tempos, Batman Animated Series, que criou o Universo Animado DC.

O filme foi a inspiração para a melhor série animada de todos os tempos.

Mas o que parecia ser o fim do Morcego no cinema, era somente uma grande pausa para uma nova série de filmes que entrariam para a história do cinema.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.