Uma das polêmicas que está no ar atualmente é sobre a Ariel, protagonista de A Pequena Sereia, filme animado de 1989 que foi apresentada sendo ruiva. Os fãs xiitas, além de racistas, atacaram pelas redes sociais a atriz Halle Bailey, somente porque ela é negra. “Acabaram com minha infância” diziam alguns exaltados. Mas não foram os primeiros. Na verdade, durante os últimos dez anos a industria cinematográfica tem mudado para acompanhar as próprias mudanças no mundo, seja para inclusão, seja para sobreviver.

O problema é que quando temos filmes que se tornam para nós um pedaço de nossa memória, no tempo que éramos mais jovens, nos sentimos donos do filme, do personagem e por aí vai. Mas um grupo pequeno, mais ruidoso e que não perde tempo e ataca qualquer adaptação do filme/personagem/HQ ou obra que se vale. Por mais que adoremos e somos até responsáveis pelo sucesso, ao consumir tudo sobre a obra, não somos os donos e o ingresso ou o HQ ou livro que compramos não nos dá o direito a alguma título acionário.

Será que o cinema teria coragem de apresentar um Superman negro?

Como dito acima, embora a maioria acabe aceitando a adaptação, esse grupo pequeno não aceita, por falta de maturidade, porque acha que tudo vai estragar a infância. Quando o terceiro filme do Thor mudou o direcionamento da cinessérie, que até então não tinha uma personalidade e fez o personagem, que não sabia se era um playbozinho ou um guerreiro relutante, acabou o transformando em um personagem sarcástico, com nuances dramática, aproveitando o talento de Chris Hemsworth, que consegue ir do drama à comédia na mesma cena, esse grupo cravou que era uma heresia e que estragaram o Thor. Mas o filme foi o maior sucesso entre os três filmes e considerado um dos melhores filmes da MCU.

A Disney está fazendo o remake de todos seus filmes animados e tem sido um sucesso, alguns deles novas visões como Malévola, Christopher Robin e outros adaptações quase fieis ao original como A Bela e a Fera, Aladdin. Mas somente em falar que haverá um remake, ou reboot, já é o suficiente para esses fãs execrarem a obra ainda sem terem sido feitas e dizerem “Acabaram com minha infância”. Muitas obras são produtos de seu tempo e não existe lei que proíba novas versões, adaptações e etc.

Malévola, a versão com Angelina Jolie se mostrou interessante e fez muito sucesso. Ela não poderia realmente ser a heroína? A Disney provou que sim.

E a palavra mais importante é adaptações. Veja bem, não existe um meio único para a arte, que chamamos de mídia. Uma animação pode ser transformada em filme live-action e vice-versa. Pode ser feito uma animação de um livro, ou desse livro pode ser feito um filme, assim como uma HQ pode virar um filme ou o contrário. Isso ocorre deste que o mundo é mundo.

Se um livro ou uma HQ ou um filme que seja, muda o direcionamento, já é o suficiente para esse grupo atacar a obra, os autores, a produtora, como os fanáticos atacam os diferentes deles. Petições para mudar o filme, o ator, o diretor, ataques a deus sabe quem nas redes sociais, o policiamento desse grupo a qualquer coisa que “estrague a infância” é feito com uma precisão cirúrgica. Mas nada disso muda, pois os autores, diretores, produtores não se preocupam com isso. Se eles tiverem que mudar tudo a todo momento que um fã chiar, eles não saem do lugar. E os artistas não se importam, na verdade. Eles sabem o que querem, eles são os profissionais, eles estão onde estão porque tem o talento para tanto.

Game of Thrones na TV foi bem diferente dos livros

Nem sempre eles acertam e acabam até fazendo uma obra ruim, ou acertam até demais e acaba afastando o público. Isso acontece e Blade Runner é um exemplo. Foi um filme tão cerebral que não foi sucesso de público, mas com o passar dos anos acabou se tornando um cult, hoje aclamado pelos fãs.

Mas o artista, melhor do que ninguém sabe que as mídias são diferentes e eles tem que adaptar, ou corre o risco da obra não ficar a contento. E durante essa adaptação, eles podem mudar personagens, lugares, etc, mas mantendo a essência. A maior parte dos fãs ou até público casual, percebe e gosta da obra independente se é fiel até o último átomo da obra a qual se inspirou, pois o importante é tocar o expectador. E pode fracassar se for idêntico, mas não houver talento para fazer a obra tocar o coração da platéia. Um exemplo é Watchman, que é uma das obras mais cultuadas das HQs nos anos 80 e é um clássico escrito por Alan Moore e ilustrada por Dave Gibbons , que ajudou a mudar a industria das HQs a partir deste período. Quando foi transportado para o cinema, o filme dirigido por Zack Snyder dividiu os fãs e considero um filme mediano. O filme foi na parte técnica um primor, mas em história, praticamente foi idêntico, quase quadro a quadro, à HQ, o que o tornou um filme sem alma. Em outras palavras, não tocou o coração dos fãs como a história em quadrinhos vez.

A produção de Ghost in the Shell foi muito criticada por ter colocado Scarlett Johanson como protagonista, visto que a personagem é nipônica. Para o contexto da história, não foi uma boa ideia mesmo.

O que funciona em uma mídia, poderá não funcionar na hora. Ao transportar a HQ dos Watchmen na íntegra para a película, Snyder fez uma cópia não uma adaptação. Diferente, por exemplo de Homem-Aranha de 2002 dirigido por Sam Raimi. O diretor simplesmente pegou 40 anos de história para contá-la em um filme e foi um show de estilo. Raimi, fã de quadrinhos e principalmente do Homem-Aranha, entendeu o personagem e o que poderia usar e sabia que não poderia transportar somente o gibi, ele tinha que dar-lhe um rosto, uma alma. E foi um sucesso de público e crítica. A Marvel Studios pegou todos os seus filmes e manteve a essencia dos personagens e suas histórias, mas atualizou para o cinema, mudou origens tirou o que não funcionaria, pois no gibi funciona, mas no cinema seria muito diferente. E o sucesso do MCU é incontestável.

Logico que teve crítica ao Homem-Aranha de Sam Raimi, como “Acabaram com minha infância” porque os lançadores são orgânicos e não mecânicos. Mas também reclamaram que o Homem-Aranha do MCU, embora tenha os lançadores mecânicos, usa muita tecnológica, ele tem muita ajuda, ou ele é muito fanzoca do Tony Stark. Mais uma vez, o personagem, sua essência está lá, só foi adaptado ou atualizado. Super-heróis dos quadrinhos são os mais que transmitem o sentimento da época. Quando foi criado há 81 anos, o Superman até matava e durante os outros anos, quando a época precisava de um exemplo, ele se tornou um “escoteiro”. Mas a essência dele sempre foi mantida, um herói que lutava pela justiça. E na sua evolução se tornou um exemplo, um ícone da esperança. O próprio Kevin Feige já disse que o sucesso da Marvel Studios no cinema foi respeitando o material original, mas nunca disse para copiá-lo.

Fãs reclamaram que o Aranha de Maguire tinha teias orgânicas e também que o Aranha de Holland usava traje tecnológico. Mas para ambos os universos inseridos, foi tudo muito acertado.

Mas os fãs xiitas ainda vão pensar que são os donos dos personagens, dos livros, dos jogos e etc. Mudar a etnia, o sexo, ou até a personalidade dos personagens, uma mudança drástica da historia e tudo mais , será suficiente para cravarem “Estragou minha infância”. Mas continuará apenas isso, uma choradeira sem fim. No fundo, tudo isso é apenas um produto, que pertence a empresas. Somos apenas os consumidores que escolhemos consumir esses produtos ou não. Posso escolher, porque não me agrada mais, deixar de consumi-los. Mas não passa disso. Ficar chorando junto com esse grupo não muda nada. E pelo sucesso que estas obras conseguem, em várias mídias, parece que estão indo pelo caminho certo. E a galera do “estragaram minha infância” não passa de um bando de adultos que não querem crescer. Só lamento por eles.

A mudança da etnia do Aranha foi bem aceita, talvez porque ele era um personagem novo e não o Peter Parker. Mas haverá um fã que irá reclamar.
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