Finalmente no final de semana passada Vingadores Ultimato ultrapassou a bilheteria de Avatar, o épico 3D do diretor James Cameron, se tornando o filme que mais arrecadou em todos os tempos. Mas, qual a importância para os fãs e para os super-heróis como um todo? Vamos voltar algumas décadas para entender.

Os super-heróis, seres superpoderosos com fantasias foram criados a partir do primeiro super-herói, o Superman em 1938, na clássica Action Comics #1. Embora os heróis mascarados tivessem chegado antes, como Zorro em 1919, ou o Fantasma – o Espírito que Anda, de Lee Falk, misturar poderes com uniformes começou com o Homem de Aço. Superman foi um enorme sucesso que trouxe consigo outros heróis. Sem contar com a criação de diversas editoras que viram uma excelente oportunidade para lucrar com essa nova onda.

Mas os super-heróis sempre foram considerados coisa de crianças, e até eram nesses primeiros anos. Na década de 40, Superman, Batman e Capitão América, entre outros, tiveram filmes que eram vistos em matiné. Superman teve sua série de TV nos anos 1950. O que eles tinham em comum? Eram produções toscas se comparados aos padrões de hoje. Mas já era também a ideia de que deste o início os produtores já sabiam que esses super-heróis eram um bom investimento. Afinal, crianças também consomem. Mas os fantasiados, com a cueca por cima das calças, não passavam de programas para crianças e isso não mudaria até o fim dos anos 70.

Batman dos anos 40, bem tosco para os dias atuais

Embora com o fim da 2ª Guerra Mundial em 1945 (o auge dos gibis de super-heróis foi durante essa guerra), Superman e Cia acabaram sendo jogados de lado pelo público. Somente Superman, Batman e Mulher Maravilha continuavam tendo revistas próprias, o restante amargou cancelamentos, além de muitas editoras terem falido. Foi quase o fim desse gênero, com as HQs passando a ser dominadas pelo gênero de Terror e de Faroeste. Os super-herói só voltaram a ser relevantes novamente com a renovação do Flash, na revista showcase #4 pela editora dona do Superman, a futura DC Comics, pelo editor Julius Schwartz, em uma história escrita por  Gardner Fox e o artista Carmine Infantino. Com isso, os heróis voltaram renovados, com a DC sendo a maior editora do mercado, pois tinham o Superman, Batman, Mulher Maravilha, além de muitos outros que criaram ou compraram de outras editoras durante todo a década de 50 e início da de 60.

Mas em 1961, a antiga editora, que começou a lançar heróis em 1939, era chamada Timely Comics e passou os anos 50 com o nome de Atlas, inaugura uma nova fase dos quadrinhos como a Marvel Comics ao lançar o Quarteto Fantástico. E depois veio Hulk, Thor, Homem-Aranha. Com heróis mais realistas, onde eles viviam em cidades reais, não nas fictícias como o Superman ou Batman, os super-heróis começaram a deixar de ser coisa de criança e passaram a frequentar as universidades. Emissoras de TV começaram a prestar mais atenção nos super-heróis não como programa de crianças, mas como produtos Teen (adolescentes).

A Marvel leva seus personagens para a TV

Os produtores de TV e cinema começaram a perceber um fenômeno interessante. Os gibis de heróis estavam vendendo bem deste o retorno deles na década de 50, e mais, que os leitores não estavam abandonando os gibis enquanto cresciam. Se tornaram fãs, com fã-clubes, criando fanzines, eventos. A primeira Comic Con foi fundada em 1970, em San Diego, Califórnia. Esse tipo de fã era voraz, comprava tudo que podia sobre os super-heróis. Mas era relegado ao esteriótipo de Nerd, que no caso, essa denominação era usada de modo pejorativo.

Então, em 1973, a produtora Ilya Salkind já havia tido a ideia de fazer um filme do Superman e em 1974, finalmente, ela conseguiu os direitos para o filme. Depois de anos de desenvolvimento, atores e diretores que recusaram entrar na produção do filme (pois lembre-se, super-heróis era considerado coisa de criança e ridículos para os já consagrados artistas deste meio), resolveram aceitar fazer o filme. Depois de ter sido recusado por Steven Spielberg e George Lucas, só para citar os mais famosos, o diretor Richard Donner subiu a bordo da produção em 1977. E graças a ele, que entendeu o herói kriptoniano e sua história, o filme lançado em 1978 foi um sucesso e hoje Superman – O Filme é considerado o melhor filme de super-herói do cinema.

No fim dos anos 70 finalmente os super-heróis entram no cinema com o melhor filme, o ótimo Superman – O Filme

Embora tenha sido um grande sucesso e recebido três indicações ao Oscar de Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora (Pontuação Original) e Melhor Mixagem de Som, só recebeu um Prêmio do Oscar de Realização Especial por seus efeitos visuais, revolucionários para a época. Mas com a queda de qualidade dos filmes posteriores (Superman 2 ainda tinha muita qualidade, pois quase todo o filme tinha sido feito por Donner junto com Superman 1, mas Superman 3 e 4 podem ser esquecidos, pois são vergonhosos), o cinema percebeu que super-heróis era um nicho muito específico e aleatório, em que não era muito interessante investir tanto. Então, graças a Superman 4 – Em busca da Paz, filmes de caras fantasiados iram acabar desaparecendo.  

Mas ainda não era hora de fechar o caxão. Em produção ainda tinha um filme da DC que mudaria tudo. Batman de 1989, dirigido por Tim Burton foi lançado e criou aquela que foi chamada de segunda batmania. O sucesso estrondoso foi o que salvou os super-heróis de terem sumido de vez nos cinemas. Mas novamente era um caso isolado, pois, como a Warner Bros. era dona da DC, ela só levaria aos cinemas os personagens mais importantes, o Batman e Superman. Embora a Mulher Maravilha fosse uma das grandes, a produtora não achava que um filme com uma mulher protagonista fosse fazer sucesso. E a Marvel estava a anos tentando levar para o cinema seus personagens, mas como não conseguia, se contentava em filmes e séries para a TV.

Em 1989, outro grande sucesso, mais ainda raro, Batman.

Tanto a DC quanto a Marvel levaram para a TV seus super-heróis, como animação ou série live-action. A Marvel não tinha produtos de qualidade, como os desenhos “desanimados” dos seus principais super-heróis ou a série de TV live-action de péssima qualidade do Homem-Aranha estrelado por Nicholas Hammond. A DC estava um pouco melhor, pois além do cinema, as séries e desenhos animados eram de melhor qualidade. Mas o que eles tinham em comum era que estavam chegando a crianças e jovens que não eram leitores de gibi. E isso era um passo importante para o cinema no futuro, pois crescia cada fez mais o número de fãs e filmes de grande produções como Superman e Batman que começaram a não ser considerados apenas “acidentes”.

Nos anos 1990, a industria de HQs recebeu um grande golpe. Com a mudança do modo de fazer negócios dos anos 80 que se consolidou nos anos 90, as HQs se tornaram itens de colecionador e com muitos fãs comprando várias edições do mesmo número para tentar depois revender por um preço exorbitante, a bolha estourou e a Marvel chegou a pedir falência. A DC era propriedade da Warner Bros e isso a salvou de ficar nesta situação, mas ela também foi muito prejudicada e precisou rever todo seu negócio. A Marvel se viu obrigada a vender os direitos cinematográficos em péssimos acordos para poder se livrar das dívidas, que a estavam corroendo.

A partir daí tudo mudou. Mesmo com o acordo tendo sido péssimo para a Marvel, foi ótimo para os super-heróis e principalmente para os fãs, que finalmente puderam ver seus heróis na tela grande. Mesmo que antes, os super-heróis tenham tido filmes, com a maioria de péssima qualidade e sendo fracassos de bilheteria, os produtores ainda viam um modo de ganhar dinheiro com este fãs. A Fox ficou com X-Men e Quarteto Fantástico, Homem-Aranha na Sony e outros heróis espalhados em outras produtoras.

X-Men abriu as portas de vez para os super-heróis nos anos 2000

As produtoras ainda não sabiam o que fazer com esses heróis, e o único super-herói que fazia sucesso no cinema era o Batman até 1997, quando depois do decepcionante filme Batman e Robin, as portas pareciam ter se fechado. Até a New Line Cinema distribuir Blade – O Caçador de Vampiros em 1998, que se não abriu novamente as portas, pelo menos deu a chave para isso. Em 2000 a Fox lança X-Men – O Filme, que foi um grande sucesso na época e finalmente mostrou que a força dos super-heróis não era uma moda passageira. Com um diretor que vinha de um grande sucesso, o filme OS Suspeitos e com um elenco de primeira, com atores consagrados, mostrou a receita do sucesso, mesmo que o filme não fosse fiel aos quadrinhos e tenha trocado os trajes coloridos por roupas pretas de couro, uma influencia de Matrix, que foi lançado um ano antes. Isso era o cinema com vergonha de ser quadrinhos.

Mas o filme que iria ser a base para toda a industria só seria lançado em 2002. Homem-Aranha de Sam Raimi foi, depois de Superman de 1978, o melhor filme de super-herói de todos os tempos, sendo fiel, embora atualizado para os novos tempos. Foi o filme de super-herói que mais arrecadou até aquele momento, com mais de 820 milhões de dólares mundialmente. Os fãs dos quadrinhos, se juntando aos fãs dos filmes, começaram a não ser mais vistos com preconceito, os super-heróis começaram a estampar não só as camisas de crianças ou adolescentes, mas de fãs mais velhos que nunca deixaram de acompanhar seus heróis favoritos.

Homem-Aranha e suas sequências consolidaram o “gênero” de super-heróis e os tiraram de nota do rodapé da história do cinema para os protagonistas da indústria. Até mesmo porque o cinema estava perdendo a arrecadação ano após ano, e filmes de determinados gêneros, como comédia romântica, estavam sendo deixados de lado, já que o público desse tipo não estava mais indo ao cinema. Foi os super-heróis que acabaram salvando o cinema, veja que ironia.

Homem-Aranha de Sam Raimi foi a consolidação dos filmes de Super-heróis e lançou as bases para a Marvel Studios

E a Warner Bros. aproveitou para ressuscitar seu principal super-herói, o Batman em uma cinessérie dirigida por Christopher Nolan que cravou no mundo todo que super-herói, enfim, não era coisa de criança. Pela primeira vez na história do cinema, um filme teve uma indicação que não fosse técnica. Heath Ledger foi o Coringa em Batman – O Cavaleiro das Trevas e foi o ganhador póstumo do Oscar de Melhor Ator coadjuvante. Ele infelizmente morreu pouco depois do filme estrear. Com um diretor de renome e atores de primeira grandeza, Batman Begins de 2005 trouxe de volta o Homem Morcego ao cinema, em meio a muitos outros filmes que começaram a ser feitos, mas ele se destacava por ser diferente, por ser mais realista. Sua sequência elevou o filme, não sendo considerado um filme de super-herói, mas um filme policial com um super-herói. O Coringa roubou a cena em uma interpretação magistral de Ledger e foi a maior bilheteria de um filme de super-herói de todos os tempos, pois foi o primeiro a chegar aos 1 bilhão de dólares.

Batman – O Cavaleiro das Trevas, a sequência de Batman-Begins, foi o primeiro filme de super-heróis ultrapassar a barreira de 1 bilhão de dólares de bilheteria

Com todo o sucesso que os super-heróis fizeram durante a década de 2000, tendo se tornado um sug-gênero de tão importante eles se tornaram, a coroação seria feita com a criação da Marvel Studios, que com um risco considerável de perder todos seus personagens, pois os deu como garantia de empréstimo, lançou o filme que foi corajoso e muito arriscado. Porque, sem seus medalhões, a Marvel só tinha os personagens que conseguiu recuperar e eles eram de 2º ou 3º escalão. Embora não fosse um personagem totalmente desconhecido, Homem de Ferro também não era um Homem-Aranha ou X-Men. E para piorar a escalação de Robert Downey Jr não era vista com bons olhos pelos executivos do estúdio e o diretor Jon Freaveu e o produtor Kevin Feige tiveram que lutar muito para mantê-lo. Nesta época, a carreira de Downey estava quase acabada por causa de seu vício em drogas. Mas tudo foi superado e o filme foi um sucesso arrasador.

Começava aí o reinado da Marvel Studios que depois de fazer os filmes de seus principais heróis, os juntou em um filme-evento, Os Vingadores em 2012, que fez absurdos 1,5 bilhão de dólares e foi o maior filme de super-heróis de todos os tempos. Aí, os fãs puderam finalmente dizer “que época boa para ser nerd.” A Marvel tinha criado o MCU, seu universo compartilhado, como nos quadrinhos, viam seus heróis interagirem entre eles o tempo todo, quase em todos os filmes.

A estreia da Marvel Studios veio com Homem de Ferro em 2008

Foi o primeiro filme dos Vingadores que lançou Thanos como o vilão que uniria todo o MCU para o evento que ficou conhecido como a Saga do Infinito, pois durante a maioria dos filmes, era mostrado as pedras do infinito e que Thanos estava coletando elas pela galáxia. Com 18 filmes de sucesso, finalmente o filme-evento Vingadores: Guerra Infinita de 2018 se tornou a culminação da Saga do Infinito, juntando todos os heróis em um único filme. O sucesso foi esmagador e preparava para a grande conclusão que seria o 22º do MCU, Vingadores Ultimato. E se a primeira parte foi um sucesso de mais de 2 bilhões de dólares, Vingadores Ultimato foi o evento de maior bilheteria da história do cinema, ultrapassando Avatar, o detentor do título há 10 anos.

Antes de Ultimato, foi lançado o filme Pantera Negra que entrou para a história como o primeiro filme de super-heróis a receber uma indicação ao Oscar de Melhor Filme, uma fato surpreendente. Vingadores Ultimato, ao quebrar o recorde de Avatar, consolida a força e importância dos super-heróis, não somente no cinema, mas em todo a industria do entretenimento. Não porque é somente um filme, mas porque foi criado como o maior-evento do cinema, ao juntar todos os filmes como uma única história, sendo ele a conclusão de uma verdadeira saga. Nem Star Wars conseguiu tanto. Anos antes de Vingadores: Guerra Infinita estrear, críticos já diziam que esse “gênero” estava saturado e que iria acabar. Alguns artistas ainda torcem o nariz para os filmes de super-heróis, mesmo que a maioria os tenham abraçado. Muitos que ainda não participaram dessas produções admitem que querem ou são fãs. Várias séries de TV, em live-action e animações estão sendo produzidas. Pelo jeito, esse não é um moda passageira ou gênero saturado. A Marvel fechou a Fase 3 com Homem-Aranha Longe de Casa e é o primeiro filme do Aranha a chegar ao seleto grupo que arrecadou 1 bilhão de dólares. A importância para os fãs e para o cinema é incontestável e não parece que irá arrefecer tão cedo, visto que a Marvel já tem planejado sua Fase 4 e 5. A Warner acertou finalmente seu universo e está fazendo sucesso e produzindo mais filmes dos heróis da DC, além de outros heróis de outras editoras que também estão ganhado a tela grande ou a TV.

Vingadores Ultimato se tornou o filme de maior bilheteria de todos os tempos

E pensar, que a muitos anos atrás, o cinema via os super-heróis apenas como produtos descartáveis, verdadeiros caça-niqueís. E que, graças aos mesmo super-heróis que salvaram o cinema há vinte anos atrás, são os mesmo hoje que os fazem ganhar mais dinheiro que eles já ganharam em toda a história. É ou não é uma ironia?

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