Com Thor: Ragnarok, a Marvel conseguiu ousar, mostrando que não era uma produtora presa a uma única fórmula. Com o fim da obrigação de Kevin Feige de se reportar ao CEO da Marvel Entertainment Ike Perlmutter, onde não havia mais um limitador criativo para a Marvel Studios, Feige continuou ousando ainda mais no filme seguinte, Pantera Negra.

Logicamente, quando a Marvel Studios começou seu universo compartilhado com Homem de Ferro, a intensão não era ganhar um Oscar, mesmo que ser reconhecido fosse extremamente bom. Mas não era a intensão da Marvel, ainda mais que um filme como Batman – O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, um filme mais ” sério” e realista não foi indicado, então um filme mais fantasioso como os filmes produzidos pela Casa das Ideias não seria.

Mas enquanto os filmes da Marvel iam ganhado o cinema e se tornando a franquia mais popular e consistente de todos os tempos, um Oscar já não era um sonho distante. E mesmo com muitos críticos e até mesmo atores sendo opositores dos filmes da Marvel, em 2018, Pantera Negra se tornou o primeiro filme de super-heróis a ser indicado ao Oscar de melhor filme. E também foi um dos filmes mais bem-sucedidos, um dos melhores e mais tematicamente mais ambicioso que a Marvel Studios já teve.

Chadwick Boseman foi escolhido para ser o Pantera Negra

Antes mesmo da criação da Marvel Studios e do seu Universo compartilhado, o desenvolvimento de um filme do Pantera Negra já existia, em pleno anos 90, com Wesley Snipes envolvido para ser o protagonista. Quando a Marvel recuperou os direitos do personagem, Snipes era a escolha do estúdio para dar vida ao herói. Mas a prisão do ator por motivos de não apresentar suas declarações de imposto de renda fizeram que ele fosse descartado.

Embora a prioridade da Marvel Studios fosse os filmes que foram desenvolvidos inicialmente, Pantera Negra era considerado um filme promissor deste o início. Em 2007, o diretor John Singleton estava cotado para direção e, em janeiro de 2011, o filme entrou em desenvolvimento oficial com seu primeiro escritor, o documentarista Mark Bailey (Pandemic). Nesta época, Nate Moore – o chefe do programa de escritores da Marvel, que foi extinto – embarcou em Pantera Negra como principal produtor criativo.

Já em Homem de Ferro 2, a Marvel chegou a cogitar apresentar Wakanda, mas acabou não o fazendo e novamente em Vingadores: A Era de Ultron Wakanda foi colocada como uma possibilidade, mas acabou que foi somente referenciada, não aparecendo nada da nação, pois ainda não tinham uma ideia consistente de que direção o país teria. Mas finalmente a Marvel já se sentia confiante e aproveitaram Capitão América: Guerra Civil não somente para apresentar a ideia de Wakanda, mas também para apresentar seu regente, Tchalla, o Pantera Negra.

 Ryan Coogler foi escolhido o diretor. Aqui ao lado de Danai Gurira

Chadwick Boseman foi apresentado pela Marvel em outubro de 2014, quando a pré-produção de Guerra Civil estava em andamento, como o Pantera Negra, que teria um filme-solo que seria lançado em novembro de 2017. Boseman recebeu o papel imediatamente e com a produção preparando sua entrada em Guerra Civil, a Marvel começou a busca de escritores e diretor para o herói de Wakanda.

Selma Ava DuVernay apareceu em noticiários em maio de 2015 como possível diretora de Pantera Negra e ela realmente quase fechou acordo com a Marvel. Mas após muita conversa com o estúdio, a diretora percebeu que teria que dedicar muito tempo com a franquia e decidiu não embarcar, mesmo que estivesse ansiosa pelo desafio. Também disse que a visão que a Marvel tinha da história não era a qual ela gostaria de seguir.

Como, ainda nesta época, Feige ainda se portava a Perlmutter, significava que a diretora teria pouco autonomia criativa. Mas pouco depois da saída de DuVernay das negociações, foi onde Feige se livrou de Perlmutter e conseguiu fazer a Marvel Studios trabalhar sem amarras criativas.

Michael B Jordan deu vida ao antagonista Killmonger

F. Gary Gray e Ryan Coogler estavam sendo considerados para a direção do filme em outubro de 2015. Mas em dezembro, depois do bem-sucedido Creed, Coogler assinou contrato para co-escrever e dirigir o Pantera Negra. Ao mesmo tempo, Joe Robert Cole, que fazia parte do programa de roteiristas da Marvel e escrevia filmes para Máquina de Combate e Inumanos, que nunca foram feitos, assinou um contrato para co-escrever Pantera Negra com Coogler.

Coogler conseguiu convencera Marvel a deixá-lo montar sua equipe criativa. Tradicionalmente a Marvel utilizava a mesma equipe em todos os seus filmes, o que os faziam parecidos em sua estética. Mas com Pantera Negra, Coogler teve a liberdade de trazer a diretora de fotografia Rachel Morrison ( Fruitvale Station – A Última Parada), a designer de produção Hannah Beachler (Creed ), a figurinista Ruth E. Carter ( Malcolm X ) e o compositor Ludwig Goransson(Creed ). Todos esses indivíduos eram novatos da Marvel e acabaram conseguindo indicações ao Oscar por seu trabalho com Beachler, Carter e Goransson realmente vencendo. Novamente, não é difícil traçar uma linha reta entre a reestruturação de Feige na Marvel e a disposição do estúdio de realmente abalar a maneira como os filmes da Marvel erão feitos antes de Pantera Negra.

As histórias em quadrinhos de Christopher Priest e Ta-Nehisi Coates foram a principal inspiração de Coogler ao escrever os roteiros, e o diretor pretendia tornar o filme “profundamente pessoal”. Coogler até procurou conselhos de roteiro de Donald Glover e Stephen Glover, que deram notas sobre o filme.

Pantera Negra buscou inspiração no povo africano

Coogler foi até a África fazer pesquisa para o filme, o que Feige disse ser tão importante e vital para o Pantera Negra quanto qualquer outra história em quadrinhos. Isso levou diretamente à expansão da ideia de explorar o que significa ser africano versus o que significa ser afro-americano nos personagens de T’Challa e Killmonger ( Michael B. Jordan ).

Como ele estava contando uma história tão intrinsecamente ligada à experiência negra, Coogler fez questão de contratar um conjunto quase totalmente negros na frente da câmera, mas também atrás da câmera. A co-estrela Daniel Kaluuya ficou impressionada, dizendo que foi a primeira vez que trabalhou com uma equipe onde sua tonalidade era de afros-descendentes.

Outra atitude digno de nota foi permear as personagens femininas fortes no filme, permeando o elenco com mulheres capazes e de força de vontade como Nakia ( Lupiya Nyong’o ), Shuri ( Letitia Wright ) e Okoye (Danai Gurira). O diretor disse que se inspirou principalmente em sua esposa, que considera muito forte e determinada.

Com um elenco feminino forte, Pantera Negra deu muito destaque a força das mulheres

Todo o design do filme foi meticulosamente planejado, com cores destinadas a sublinhar os temas do filme. Por exemplo, a bandeira Pan-Africana é vermelha, preta e verde, e a aparência secreta de T’Challa, Nakia e Okoye é vermelha, preta e verde. Ao mesmo tempo, Morrison trabalhou duro para distinguir visualmente Pantera Negra de outros filmes do Universo Cinematográfico da Marvel, e os frutos de seu trabalho não só resultaram em um belo filme, mas também a fez se tornar a primeira mulher a ser indicada ao Oscar de Melhor Cinematografia.

As filmagens começaram em 21 de janeiro de 2017 e terminaram em 19 de abril de 2017, com produção baseada principalmente em Atlanta, Geórgia. O Pantera Negra foi lançado nos cinemas em 16 de fevereiro de 2018 e em seu primeiro fim de semana, arrecadou US$ 201,7 milhões. O mais impressionante, no entanto, foi que a bilheteria continuou forte semana após semana. As pessoas não apenas viram o filme e seguiram em frente. Eles viram, contaram aos amigos, trouxeram amigos e viram pela segunda, terceira e quarta vez. Pantera Negra chegou a US$ 1,3 milhão em todo o mundo, e seu total doméstico foi de US $ 700 milhões, o tornou o filme de maior bilheteria no mercado interno de 2018 – sim, ainda maior do que o total de US$ 678,8 milhões de Vingadores: Guerra Infinita.

Pantera Negra conquistou o Oscar de melhor design de produção. No total ganhou três Oscars

Com esta impressionante bilheteria, reforçada por criticas muito positivas do público e da crítica, Pantera Negra tinha muitas chances de concorrer ao Oscar na parte técnica. Mas a Marvel estava de olho no grande prêmio e contratou rapidamente um dos principais estrategistas de prêmios do setor para liderar a próxima campanha do Oscar.

Ele fez maravilhas, já que Coogler, Feige e Cia. eram frequentadores regulares do circuito de prêmios durante o outono de 2018. A indústria como um todo abraçou o Pantera Negra ao som de sete indicações ao Oscar no total e três vitórias para Figurino, Design de Produção e Trilha Sonora. Ah, sim, e finalmente se tornou o primeiro filme de super-herói indicado para Melhor Filme, marcando Feige com sua primeira indicação pessoal ao Oscar.

Wakanda em toda sua glória

Pantera Negra é um sucesso não só para a Marvel e o gênero de super-heróis como um todo, mas é importante observar que seu sucesso se deve precisamente ao fato de um cineasta como Ryan Coogler ter permissão para fazer um filme profundamente pessoal que realmente era sobre algo, enquanto ainda emocionava os fãs do gênero dos super-heróis.

Pantera Negra  é um filme complexo e profundamente envolvente sobre a moralidade e o custo do isolacionismo. Através dos olhos de Killmonger, de Michael B. Jordan, o filme mergulha na especificidade da experiência afro-americana, usando a vida de perdas e dificuldades de Killmonger como metáfora para a comparar a vida de privilégio de T’Challa. É para a nação africana de Wakanda permanecer ociosa, escondida, enquanto aqueles de ascendência africana em todo o mundo experimentam dificuldades generalizadas como uma minoria desprivilegiada? Se alguém tem os meios de intervir para a melhoria do seu povo, é moralmente obrigado a fazê-lo? Essas são grandes perguntas sem respostas fáceis, e o fato de Coogler poder colocar essas ideias complexas em um filme de super-heróis da Marvel – na mesma franquia de Thor: O Mundo Sombrio e Homem de Ferro 3 – ainda é incrível.

Pantera Negra consolidou a mudança que a Marvel começou a implementar em Thor: Ragnorak.

Graças a Feige não ter mais a mão de Perlmutter tolhendo-o criativamente, por assim dizer, melhorou a qualidade do Universo Cinematográfico da Marvel. Filmes como Pantera Negra e Thor: Ragnarok são visões singulares. E então você tem a ousadia de Saga do Infinito, uma conclusão épica em duas partes, que provavelmente nunca mais veremos novamente, que levou quase meia década para ser montada.

Na próxima semana, vamos nos aprofundar na produção de Vingadores: Guerra Infinita.

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