Guerra Infinita foi um filme ousado. Afinal, o protagonista era o vilão, que depois de conseguir as Pedras do Infinito, sem antes derrotar todos os heróis, conseguiu seu objetivo, que foi eliminar metade da vida no universo. Antes do filme estrear, ele foi descrito como o ponto culminante do MCU. Mas ele recebeu essa alcunha até a chegada de Vingadores: Ultimato, onde vemos os heróis se insurgirem quanto aos planos do vilão, como também vemos o final do arco dos heróis Homem de Ferro, Capitão América e Viúva Negra. É a verdadeira conclusão do arco dos 22 filmes que o antecederam até aqui, um filme de três horas, com três filmes diferentes em um e a maior bilheteria de todos os tempos. Está é a história da produção de Vingadores: Ultimato.

Vingadores: Guerra Infinita e Vingadores: Ultimato foram pensados para serem feitos juntos. A ideia surgir em um retiro da Marvel em 2014. Logo em seguida, a Marvel Studios anunciou as datas de lançamento de Vingadores: Guerra Infinita – Parte 1 e Vingadores: Guerra InfinitaParte 2, mas o nome mudaria quando a equipe decidisse que eles queriam que fossem dois filmes distintos. Inicialmente o título de Ultimato seria Avengers: Infinity Gauntlet (Vingadores: Manopla Infinita), mas acabou como Avengers: Endgame (Vingadores: Fim do Jogo, no Brasil se tornou Ultimato).

Os diretores responsáveis por Capitão América: O Soldado Invernal, Joe e Anthony Russo, acabaram sendo contratados para fazer Vingadores: Guerra Infinita e Ultimato após a saída de Joss Whedon, que após Vingadores: A Era de Ultron decidiu abandonar a Marvel Studios para se poupar. Os roteiristas veteranos da Marvel, Christopher Markus e Stephen McFeely se juntaram aos irmãos Russo. Os quatros então começaram debater sobre a história ainda em Capitão América: Guerra Civil, e depois de muitas tentativas, eles chegaram ao roteiro que conta a história de Thanos na Guerra Infinita e em seguida focaram novamente em contar a história da equipe original dos Vingadores no segundo filme.

Enquanto o roteiro avançava, ficou decidido que Thanos venceria no final do primeiro filme.Mas descobrir como acompanhar isso se tornou um obstáculo e os cineastas decidiram abandonar a ideia de filmar os dois filmes ao mesmo tempo, pois o roteiro de Ultimato não estava pronto. Como Kevin Feige disse, a economia que teriam com as filmagens conjuntas foram embora, pois enquanto filmavam Guerra Infinita, o roteiro ainda estava sendo finalizado, enquanto eles ainda estavam escrevendo Ultimato.

O estalo foi uma das grandes ideias da equipe de filmagem, que foram pensadas logo no início dos trabalhos, mas tiveram de decidir quanto seriam usados, no meio de Guerra Infinita ou no final? Quando finalmente decidiram usá-lo como o clímax chocante, a história do segundo filme começou a ser trabalhada para descobrir como trazer todos de volta. McFeely explicou que quando decidiram voltar com os outros heróis, perceberam que nem todos poderiam estar deste o início e o filme seria concentrado nos Vingadores Originais, e os heróis “resgatados” só iriam aparecer no final do filme.

Thanos foi uma dor de cabeça para a equipe de filmagens, pois não sabiam como encaixar o Titã Louco em Ultimato. Durante três semanas eles pensaram em o que fazer com ele até que o produtor executivo Trinh Tran sugeriu mata-lo logo no início do filme. McFeely explicou que Thanos era poderoso demais e depois de tantas semanas pensando sobre como encaixá-lo, a decisão de mata-lo logo no início do filme por sugestão de Tran foi por que o produtor estava frustrado. Mas foi o suficiente para a equipe pensar se seria interessante. E acabou sendo usado.

Com as ideias aparecendo, os cineasta também tiveram a ideia de usar a viagem no tempo como uma maneira de revistar os filmes e momentos importantes do MCU, já que a ideia era que o filme fosse uma celebração de tudo que aconteceu até aquele ponto. Mas os cineastas não queriam uma saída fácil, com Stark simplesmente inventado uma máquina do tempo, por isso eles ainda tinha em mãos um “personagem” que ainda estava sendo apresentado em Homem-Formiga e a Vespa: O Reino Quântico.

Vários físicos quânticos foram consultados para explicar sobre a mecânica quântica e sua versão da viagem no tempo, o que inspirou a animada conversa dos Vingadores sobre De Volta Para o Futuro. Mas a noção de viagem no tempo para o grupo estava enraizada nos personagens, pois a equipe sabia dos finais de Tony Stark e Steve Rogers.

No início do processo de brainstorming, Markus e McFeely discutiram os cenários de “E Se?” para todos os Vingadores, pensando em versões alternativas para cada um, mas McFeely pensou que em vez de ser uma realidade alternativa, seria um salto de cinco anos deste Guerra Infinita, o que acabou sendo transformado no ato I do filme.

A ideia de avançar cinco anos no tempo foi parcialmente inspirada no final da 1ª temporada da série do canal da FX, Fargo, e o flash em  Lost e a ideia era poder refletir como o tempo mudou os Vingadores originais, abrindo o caminho para que essas evoluções “E Se?” sejam exibidas de maneira realista e fundamentada.

Uma grande mudança foi obviamente o Hulk inteligente, mas a transição de Bruce foi planeja e filmada para aparecer em Guerra Infinita antes dos trabalhos de pós-produção removê-lo do filme. McFeely explicou que na luta em Wakanda, Banner, após as sucessivas negativas do Hulk de lutar, em um momento que foi de maior necessidade, eles entraram em acordo e se fundiram, e nesse momento, o Hulk inteligente rasga a armadura e destrói Obsidian. Para o escritor, o filme precisa mostrar somente as perdas dos heróis no terceiro ato e esse sucesso não condizia com o momento.

Outra mudança, muito mais cômica, foi o Thor Lebowski, que refletia a profunda depressão em que o Deus do Trovão se encontrava após não ter conseguido trazer de volta seus amigos. Natasha se tornou quase uma eremita, ao não sair do QG dos Vingadores onde ela comandava as missões quase que 24 horas por dia e Steve que se tornou um conselheiro para os que perderam entes queridos em Guerra Infinito. A mudança mais drástica foi o Gavião Arqueiro que passou a ser um assassino conhecido como Ronin. O único que teve uma vida mais “feliz” foi Tony Stark que se casou com Peper Potts e teve até uma filha. Essa vida feliz de Tony fornece uma tensão dramática com o Cap e a equipe aparece para pedir sua ajuda. Lógico que todos esses arcos foram criados já sabendo que Tony e Natasha morreriam e o Capitão viajaria para o passado e terminaria com Peggy Carter. McFeely diz que a morte de Natasha completa a jornada emocional de sua personagem, pois depois de tantos sofrimentos que ela sofreu para se tornar a Viúva Negra, ela não perderia a chance de recuperar a única família que ela conheceu e dar a vida era um valor pequeno para se pagar. No entanto, houve uma versão em que era o Gavião Arqueiro que daria a vida e não a Viúva Negra. Mas, para McFeely, a morte dele, que não voltaria a sua família, era melodramático demais.

Dito isso, a sequência foi escrita e trabalhada sabendo muito bem que Johansson estaria protagonizando seu próprio filme da Viúva Negra depois de Vingadores: Ultimato (que acontece antes dos eventos da Guerra Infinita), e é por isso que Natasha não teve a mesma grande despedida que a de Tony.

Já quanto a morte de Tony Stark no final de Vingadores: Ultimato, foi uma ideia que surgiu logo no início dos trabalhos. Como ponto culminante de sua trajetória, o final de Tony precisava ser altruísta, para contrapor com o personagem egoísta que começou em Homem de Ferro de 2008.

Anthony Russo admitiu que Robert Downey Jr tinha sentimentos contraditórios sobre o destino de seu personagem. Afinal, o arco do Homem de Ferro é o mais longo e completo do MCU, visto que foi seu personagem que inaugurou esse universo. Mesmo com essas emoções, o diretor acredita que Downey aceitou totalmente.

Ao mesmo tempo que estava renovando seu contrato para Homem-Aranha: De Volta ao Lar e para os dois Vingadores, ele foi abordado com essa ideia. Então deve ter sido bem estranho saber que seu personagem iria morrer enquanto estava assinando para grandes e empolgantes projetos.

Da mesma forma, o final do Capitão América já tinha sido traçado desde o primeiro esboço, onde ele dançaria com Peggy Carter ( Hayley Atwell ). Mas McFeely admitiu que tinha ressalvas sobre se esse final, pois queria que fosse muito bom para os fãs.

Se o arco de Tony ao longo do MCU e culminando em Vingadores: Ultimato, o personagem está passando do egoísta para o altruísta, então o arco do Capitão deveria passar do altruísmo completo para finalmente poder viver uma vida de sua própria escolha. E essas duas ideias são lindamente executadas ao longo da exibição de Ultimato.

Enquanto as filmagens de Vingadores: Guerra Infinita começaram em janeiro de 2017, as de Ultimato só começaram em agosto de 2017, ou seja, as produções foram divididas alguns meses antes do início das filmagens. Mas, mesmo assim, o produtor executivo Trinh Tran explicou que eles estavam manipulando os dois filmes ao mesmo tempo.

O dia mais monumental das filmagens aconteceu em outubro de 2017, quando eles filmaram uma cena que no roteiro se chamava “O Casamento”. Na verdade, era o funeral de Tony (apelidado de “o casamento” para manter a morte em segredo), e A Marvel Studios reuniu todos os atores que você vê naquela cena em Atlanta, Geórgia, ao mesmo tempo para as filmagens. Ele coincidiu com a sessão de fotos do 10º aniversário da Marvel Studios, e Feige admitiu que tem um carinho muito grande por este dia.

Nem tudo saiu perfeito quanto se queria, pois mesmo depois de encerrar Ultimato em 11 de janeiro de 2018, havia muito trabalho a ser feito. Um sequência inteira foi filmada com a atriz Katherine Langford como filha de Tony, mas acabou descartada porque o público entendeu quem a personagem deveria ser. Ela seria uma versão futurista da filha de Tony, que encontraria o pai em uma estação metafisica no momento que Thanos estalasse os dedos. Como era uma cena muito confusa, realmente foi melhor terem descartado.

Também foi necessário refazer duas sequências principais. Uma delas foi a cena da Viúva Negra e do Gavião Arqueiro em Vormir, que originalmente envolvia eles serem atacados por um exército de Thanos, conforme revelado no comentário em áudio. O exército deveria fazer os personagens tomar uma decisão sobre quem seria sacrificado, mas acabou tirando a emoção da cena.

A outra cena a ser filmada acabou sendo a última cena já feita para Vingadores: Ultimato; a frase de Tony. Originalmente, ele apenas estalou os dedos sem dizer nada. Na pós-produção, os Irmãos Russo sentiram que precisava dizer algo, mas não sabiam o que. Depois de estarem na sala de edição, os cineasta perceberam que Tony sempre foi gracejador e ele tinha que ter uma fala final, para contrapor a frase de Thanos; “ Eu sou inevitável.” Até o editor Jeff Ford, disser: “Por que não fazemos um círculo completo com Tony e ele dizer: Eu sou o Homem de Ferro?” 

Downey estava relutante em voltar para a virada icônica da frase que terminou o primeiro Homem de Ferro, mas Joe Russo revelou que, em um jantar entre eles e o produtor Joel Silver, o produtor  o convenceu de que era a decisão certa.

A nova cena foi filmada em janeiro de 2019 – apenas meses antes do lançamento do filme. Mas devido à falta de disponibilidade do estúdio, eles acabaram filmando no Raleigh Studios, adjacente ao estúdio onde Downey fez o primeiro teste para interpretar o Homem de Ferro uma década antes. Feige falou da ironia de que a última cena de Downey como o Homem de Ferro ter sido exatamente no lugar em que foi gravado como o personagem pela primeira vez.

Vingadores: Ultimato foi lançado nos cinemas em 26 de abril de 2019 e superou todas as expectativas críticas e comerciais. As críticas eram bastante uniformes e as bilheterias eram absolutamente monumentais. Com US$ 357 milhões no fim de semana de estreia, o filme quebrou o recorde de estreia de Guerra Infinita com incríveis US$ 100 milhões a mais. E, embora demorasse alguns meses, o filme ultrapassou Avatar de James Cameron, ficando no topo da parada mundial como o filme de maior bilheteria de todos os tempos, com um total impressionante de US$ 2,796 bilhões.

O público continuava indo e voltando e assistindo o filme nos cinemas, ainda mais impressionantes pelas suas três horas de duração. Mas Vingadores: Ultimato é um filme que oferece fan-service sem sacrificar arcos emocionais orgânicos. Tudo está preparado e recompensado, e, embora a primeira hora seja um drama sério de luto, ela estabelece as bases emocionais para o segundo ato divertido de viajar no tempo e o terceiro ato verdadeiramente épico do confronto final. É um filme que recompensa o conhecimento e a paixão pelos filmes anteriores do MCU – uma genuína celebração de todas as coisas do MCU e, nesse sentido, é um filme diferente de qualquer outro já feito. Não é como qualquer filme já feito, porque o Universo Cinematográfico da Marvel é uma franquia diferente de qualquer outra. E este capítulo final é uma série consistente, extremamente divertida e descontroladamente emocional, um espetáculo verdadeiro. Além disso, os núcleos emocionais dos personagens ressoam por toda parte.

Vingadores: Ultimato é o resultado de anos de trabalho duro, brainstorming, ideias descartadas e aprimoramentos feitos por Feige, Russos, Markus, McFeely, e pela equipe criativa da Marvel Studios. O fato de que ele funcionar tão bem é uma prova da especificidade com a qual os Irmãos Russo levaram este navio ao porto depois de 21 filmes no mar, e é duvidoso que algo assim seja replicado novamente.

E, no entanto, o Universo Cinematográfico da Marvel ainda não acabou. Vingadores: Ultimato certamente marca um ponto de parada e conclui os arcos de três personagens principais que ajudaram a começar tudo isso, mas o próximo filme depois de Ultimato começa a abrir um caminho para o MCU e expande o universo ainda mais, enquanto ainda carrega o peso emocional dos eventos deste filme.

No próximo artigo, iremos falar sobre a produção de Homem-Aranha: Longe de Casa.

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